Devaneios da madrugada
A noite chega, eu me deito, porém eu não durmo.
A ansiedade chega trazendo consigo a insônia e pensamentos, que me remetem ao passado, escolhas que fiz, e me vem o questionamento: Como cheguei a esse ponto da vida?
Lembro então de algumas escolhas que fiz, algumas boas, outras ruins, escolhas seguras, certas e erradas, algumas tão erradas que quase acabaram comigo.
Em seguida, penso nas pessoas que passaram por minha vida, aquelas que estão comido desde que iniciei minha jornada, aquelas que me deixaram por um período e retornamos a nos encontrar, aquelas que chegaram e se foram, as que seguiram apenas caminhos diferentes, pois faz parte da vida, e aquelas que partiram para sempre.
Lentamente os sentimentos me invadem, me sinto feliz e grata por todas as coisas boas que vivi e as pessoas que estão ao meu lado.
E vem a tristeza, sufocante, a solidão por ter perdido o meu chão, a dor por muito tempo sufocada “você não pode chorar”, foi o que me disseram inúmeras vezes, mas eu era apenas uma criança que não podia sentir.
A culpa me invade, mas porque? Por não ser a pessoa que esperavam que eu fosse, por me sentir triste mesmo após todos esses anos, por sentir que estou falhando com meu filho, por escolhas que fiz que magoaram pessoas que amo, e outras que me magoaram.
Então chega a raiva e a frustração, tão avassaladoras, o grito preso na garganta, não posso gritar, não consigo aguentar, sinto tanta raiva de tudo, mas principalmente de mim mesma, por não conseguir me livrar de tudo isso que me faz mal, e me frustro de novo, e de novo, a raiva me consome, e eu me mutilo, as mãos fechadas com tanta força, as unhas sobre as palmas, mas não é o suficiente, o punho encontra minha coxa, de novo e de novo, a dor é forte, mas ainda sinto raiva, então, destravo o maxilar, que até o momento estava travado com tanta força que doem ao movimentar levando os dentes de encontro ao antebraço, a mordida é forte, não posso me deixar roxa, então eu paro.
Porque esse sentimento não me deixa? As lágrimas escorrem pelo meu rosto, tão quentes que parecem queimar, levo as mãos a nuca, as unhas encontram a pele, cada vez mais fundo, até que a puxo para o pescoço, aliviando a pressão e volto a fechar o punho.
E, de repente, tudo passa, não sinto nada, nenhum vestígio de qualquer um desses sentimentos. Restando apenas a dor física, a marca das lágrimas em meu rosto, eu encaro o teto e assim fico, percebo que o dia está amanhecendo, logo meu marido estará em casa, logo eu terei de levantar para cumprir minhas tarefas e cuidar do pequeno e repito a mim mesma “eu preciso dormir”, então viro para o lado e adormeço por algumas poucas horas sem saber quando a crise virá e se, mais uma vez, eu sobreviverei a ela.
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